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Brasília - A discussão
sobre a crise financeira mundial ganhou espaço entre
psiquiatras do mundo inteiro reunidos em Brasília no Congresso
Brasileiro de Psiquiatria. O sobe-e-desce das Bolsas de Valores, a
incerteza no mercado, as grandes perdas de capital, para
especialistas, podem ter efeitos graves sobre a sociedade, que vão
desde o agravamento de sinais de depressão e de distúrbios
mentais até o aumento de casos de suicídio.
O tema não
chegou a ser título de alguma palestra, mas permeou várias
discussões. Entre os especialistas, há um consenso:
quanto mais uma sociedade coloca o dinheiro como um valor maior, mais
transtornos psíquicos ocorrem em tempos de crise financeira.
“É sim uma
questão de valor. O indivíduo coloca o dinheiro como um
grande fim, como um valor maior, quando ele vê isso
desmoronando, quando vê tudo isso ruindo, fica sem perspectiva,
se vê sem saída”, disse o psiquiatra Marco Antônio
Brasil, especialista no tratamento da depressão e professor do
Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Já existem
estatísticas que comprovam que há um aumento de
suicídio em momentos de crise econômica. Durante a
Grande Depressão em 1929 [quebra da Bolsa de Nova York]
houve um aumento de suicídio. No Brasil, durante o Plano
Collor, que confiscou a poupança, também houve um
aumento de suicídio”, citou o especialista.
Para Marco Antônio
Brasil, é necessário lembrar que as doenças
mentais ocorrem por um série de fatores, inclusive, externos ao
indivíduo. “O que ocorre é que pessoas que já
têm uma predisposição para determinados
distúrbios mentais, diante de uma situação de
estresse e, sobretudo, de perda de perspectiva de saída, acabam
cometendo suicídio. A sensação de se ver sem
saída é o problema maior nessas crises. É quando
a pessoa não vê alternativa. Não vê a luz
no final do túnel”, explicou o professor, que
coordena palestras gratuitas em cidades de todo país,
informando a população, principalmente as pessoas que não
podem pagar um tratamento psiquiátrico, sobre problemas
mentais como a depressão e outros distúrbios psíquicos.
No caso de uma crise
financeira como a que vem se desenhando no cenário
internacional e com efeitos sentidos nas negociações na
Bolsa de Valores no Brasil, as pessoas da classe média acabam
tendo menos condições de lidar com a nova realidade.
“Isso é comum na classe alta. Em pessoas que constroem toda
uma vida em termos de poder, de conquista, de ter ganhos e, de
repente, perdem tudo. Quem investe na Bolsa, geralmente tem muito
dinheiro e, de repente, se vê sem nada, e ainda devendo muito”,
destacou o psiquiatra.
Já as classes
mais pobres da população, de acordo com o especialista,
têm uma capacidade maior de lidar com as adversidades. "Muitas
vezes vemos pessoas pobres, que perdem a casa, perdem todos os
objetos pessoais, sobrevivem a isso e ainda têm garra para
reconstruir. Chega a ser tragicômico quando a gente vê na
televisão reportagens sobre enchentes. É comum vermos a
mulher falando que perdeu tudo e os meninos acenando para a câmera
como se fosse o seu momento de fama”, exemplificou.
A possibilidade de
aumento de suicídio e de enfermidades mentais já
preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS),
que lançou uma nota na semana passada. Durante uma reunião
com especialistas em saúde mental, em Genebra, na Suíça,
a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, disse que “não
devemos nos surpreender ou menosprezar as perturbações
e as possíveis conseqüências da crise financeira”.
Para Ronaldo
Laranjeira, psiquiatra especialista em dependência química,
a crise poderá ter um efeito no aumento do consumo de drogas,
especialmente do álcool. Coordenador da Unidade
de Pesquisa em Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina
Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), ele
considera que os efeitos no Brasil ainda não foram sentidos
nos consultórios, mas acha que, ao longo do tempo, mesmo entre
os que não aplicam na Bolsa de Valores, a crise poderá
provocar casos de depressão.
“Na medida em que
essa crise provocar recessão, menor crescimento econômico
e, conseqüentemente, menos empregos, poderá ocorrer um
aumento de casos depressivos". Quanto ao índice de suicídio,
Laranjeira, que fez doutorado na Inglaterra, disse que considera
interessante analisar o que vai acontecer na Islândia, “um
país muito rico, que quebrou e que já tinha um
altíssimo grau de suicídio”.
O professor Milton Marques Sá, que dá aulas de psicologia clínica na Universidade Federal de Pernambuco, apontou as crises financeiras como uma grande
“mola” para desencadear doenças psíquicas. “Tudo
que aumenta o estresse pode cumprir esse papel e a crise financeira
poderá ser uma grande mola para aumentar doenças
psíquicas. Mas não só isso, poderá também
ter efeito em pessoas que já possuem traços de
anormalidade ou hereditários e provocar também infarto
e outros males.”
Ele destaca um traço
cultural do povo brasileiro que pode amenizar os efeitos: o bom
humor. “O bom humor está no gene do brasileiro que ri da
própria miséria. Muitas vezes, a gente se depara com
aquela piada na qual a pessoa que está contando é a
própria vítima.”
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