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Brasília - Em
plena ditadura militar, um pequeno grupo de cidadãos negros
costumava se reunir no centro de Porto Alegre para discutir a
situação dos descendentes de africanos no Brasil.
Nessas conversas, eles concluíram que o 13 de maio – Dia da Abolição da Escravatura, assinada pela princesa Isabel
em 1888 – não tinha maior significado. Era preciso, então, encontrar uma nova data para reverenciar
a luta da população negra brasileira e enaltecer sua
participação na sociedade. Nascia, assim, o 20 de
novembro, Dia Nacional da Consciência Negra – data de evocar a
figura de Zumbi e o Quilombo de Palmares e de discutir a situação do negro no país.
Entre
os participantes do grupo estava o poeta, professor de português
e militante da causa negra Oliveira Silveira. Foi ele quem sugeriu
que o 20 de novembro – data da morte de Zumbi do Palmares – fosse adotado como dia de celebração da luta da comunidade negra brasileira. Sete anos depois, o
Movimento Negro Unificado contra Discriminação Racial
(MNUDR) oficializou o 20 de novembro como o Dia da Consciência
Negra.
Ex-integrante
do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial,
Oliveira Silveira já publicou vários livros.
Também é autor do capítulo 20 de novembro,
história e conteúdo, do livro Educação e
Ações Afirmativas: entre a Injustiça Simbólica
e a Injustiça Social, organizado pelos professores Petronilha
Beatriz Gonçalves e Silva e Valter Roberto Silvério, da
Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.
Nesta
semana, Oliveira Silveira conversou por telefone, de Porto Alegre,
com a Agência Brasil. A seguir, os principais trechos da
entrevista na qual ele relembra como surgiu o 20 de novembro, avalia a
atuação do movimento negro brasileiro, condena a
miscigenação e adverte: “O racismo não
desaparece. Pode até se aquietar, mas sempre está vivo
e atuante.”
Agência
Brasil: Por que o movimento negro gaúcho resolveu buscar
uma nova data para reverenciar a luta dos negros contra o regime
escravagista, em substituição ao 13 de maio? Oliveira
Silveira: Isso ocorreu em 1971. Estávamos insatisfeitos
com o 13 de maio. Havia um grupo de negros que se reunia na Rua da
Praia [no centro de Porto Alegre] e o nosso assunto,
invariavelmente, era a questão negra e o fato de o 13 de maio
não ter maior significação para nós.
Logo, surgiu a idéia de que era preciso encontrar outra data.
Eu, como gostava de pesquisar, aprofundei-me nisso. E encontrei
material, cuja fonte era Édison Carneiro, autor do livro O
Quilombo dos Palmares, indicando que Zumbi dos Palmares havia sido
morto em 20 de novembro [de 1695]. Essa informação
foi confirmada no livro As guerras dos Palmares, do português
Ernesto Ennes, no qual foram transcritos documentos. Já que
não sabíamos o dia de seu nascimento ou do início
de Palmares, tínhamos pelo menos a data da morte de Zumbi, o
último rei do quilombo de Palmares, Alagoas. Então, promovemos
uma reunião, que originou o Grupo Cultural Palmares, cuja
idéia era fazer um trabalho para reverenciar Palmares e Zumbi
como algo mais representativo que 13 de maio.
ABr: Qual a crítica que vocês faziam e ainda fazem ao 13 de
maio? Oliveira: Nós vimos logo que o 13 de maio teve
conseqüências práticas. Não havia medidas
efetivas voltadas à comunidade negra. Foi uma liberdade que
apareceu apenas na lei e nada de concreto ocorreu depois. Ao mesmo
tempo, era uma data oficial, que o oficialismo governamental queria
que fosse comemorada, celebrada, com homenagens à princesa
Isabel. Ao passo que Palmares significava uma liberdade conquistada
na luta, que durou um século inteiro, e, por isso, era plena
de significado. Os homens e mulheres quilombolas fizeram um trabalho
de resistência, de afirmação da dignidade humana
sem precedentes, de luta pela defesa da liberdade. Então, não havia dúvidas de
que aquela era a principal passagem da história do negro no
Brasil.
ABr: Quando foi realizado o primeiro ato para reverenciar Zumbi e
Palmares? Oliveira: Como o Grupo Palmares havia se disposto a trabalhar a partir de
datas e já estávamos em julho de 1971, resolvemos
homenagear primeiro o poeta e abolicionista Luiz Gama, que morreu em
24 de agosto, e mais adiante, em outubro, homenageamos o nascimento
do poeta e abolicionista José do Patrocínio. Em
novembro, fizemos a homenagem a Palmares. À época, o
Grupo Palmares tinha quatro pessoas e depois entraram mais duas
mulheres. Por isso, consideramos que o grupo fundador foi formado por
seis pessoas, que fizeram esse trabalho em 1971, quando homenageamos
Luiz Gama, Patrocínio e Zumbi e Palmares. O Grupo Palmares
realizou, então, no Clube Náutico Marcílio Dias,
em Porto Alegre, o primeiro ato evocativo a Zumbi e a Palmares. Foi o
início de um trabalho que teve continuidade ao longo dos
anos.
ABr: Quando o restante do país começou a reverenciar o 20
de novembro? Oliveira: Inicialmente foi só o Rio Grande do Sul, mas graças
à divulgação, com o apoio da imprensa, a data
foi se tornando conhecida. Em 1975 e 1976, São Paulo, com grupos de teatro de Campinas e da capital paulista, e o Rio de
Janeiro começaram a celebrar o 20 de novembro. De modo que foi
se implantando o 20 de novembro no país. Até que em
1978 surgiu a idéia de formar o coletivo de organizações
negras denominado MNUDR – Movimento Negro Unificado contra a
Discriminação Racial. Foi a tentativa de uma
organização que reunia algumas entidades, entre as
quais algumas já celebravam o 20 de novembro. No final de 1978, numa assembléia na Bahia, foi proposta a denominação
de Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro. Foi
uma idéia feliz de Paulo Roberto dos Santos, um militante do
Rio de Janeiro. Então, aquilo fez com que o 20 de novembro se
consolidasse [como data de celebração a Zumbi e a
Palmares e de afirmação da comunidade negra
brasileira], mas foi um trabalho contínuo do Grupo
Palmares. Foi também o coroamento de um
trabalho realizado no Rio Grande do Sul pelo Grupo Palmares e que se
tornou importante, porque foi adotado pelo movimento negro em nível
nacional.
ABr: O que representou o resgate da figura de Zumbi e do quilombo de
Palmares na luta do negro em busca da cidadania plena e de sua
auto-estima? Oliveira: Foi extremamente significativo, porque o 20 de novembro se mostrou
como algo com uma força aglutinadora muito grande. Com isso,
muitos grupos se formaram e muitas atividades passaram a ser
desenvolvidas. Em São Paulo, por exemplo, criou-se o Festival
Comunitário Negro Zumbi, que promovia atividades em cidades do
interior. Foi uma motivação muito positiva,
especialmente pela mensagem, uma coisa mais afirmativa do que o 13 de
maio.
ABr: Como o senhor explica que o resgate histórico de Zumbi e
do quilombo dos Palmares tenha começado justamente num estado
de maioria branca, como o Rio Grande do Sul, com forte presença
de imigrantes de origem européia? Oliveira: Parece até algo meio milagroso que o segmento negro tenha
resistido nos estados do Sul. Antes, a Região Sul era
considerada essa parte que vai do Rio Grande do Sul a São
Paulo. E foi onde a imigração se localizou
preponderantemente. Então, houve uma política voltada
para essa região. Foi a política do branqueamento, que trouxe
imigrantes e deixou de lado e de fora o indígena e o negro, a
partir do século 17. Essa política poderia ter
eliminado o segmento negro, mas ele resistiu. Eu considero que os
imigrantes vieram como convidados e também interessados.
Tiveram depois grande participação, grandes
oportunidades e apoio logístico, inclusive de seus países.
De modo que eles se desenvolveram muito aqui. Eles não podem
ser isentados de culpa ou qualquer coisa nesse gênero, porque,
na verdade, são beneficiários da nossa exclusão,
da tentativa de exclusão de negros e indígenas.
ABr: Como o senhor avalia a atuação do movimento negro
hoje e a inserção do negro na sociedade brasileira? Oliveira: Foi um processo. O movimento foi se desenvolvendo. Vieram novas
fases. Tivemos aquela primeira fase, de 1971 a 1978, que eu chamo de
virada histórica. Depois, uma fase de surgimento de
organizações e de aproximação com o
poder, com o governo e a participação na [Assembléia]
Constituinte de 1988. A partir da nova Constituição,
temos uma nova fase, na qual o movimento tem uma linha mais prática.
Já temos experimentações muito importantes, com
participação no governo. Temos a Secretaria Especial de
Promoção da Igualdade Racial [Sepir] e a
Fundação Palmares. São instâncias que nos
permitem uma experiência muito válida. Então, o
movimento avança. E, com a política de cotas nas
universidades, estamos dando passos importantes e necessários.
ABr: O Brasil se intitula como a maior democracia racial do mundo. Como
o senhor analisa isso? Oliveira: A democracia racial é um mito trabalhado
especialmente em função dessa política de
branqueamento, que nunca foi revogada. A miscigenação é
apresentada como uma coisa positiva, mas, na verdade, não é.
No Brasil, existe preconceito, discriminação na
prática, existe racismo. É um país
reconhecidamente racista. Isso é oficialmente reconhecido. Eu
acredito que o racismo não é uma coisa que desapareça,
que possa ser eliminado. Ele pode se aquietar, mas lá pelas
tantas está vivo, forte e atuante.
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