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Brasília - O presidente da
Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), afirmou hoje que o
presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), não deve renunciar ao cargo por causa da crise
na instituição. “Ele [Sarney] não é a crise”,
disse Temer, em entrevista à Agência Brasil. Para
Temer, a
crise é mais universal e pode ser
também uma oportunidade para melhorar as coisas. “A crise sempre
melhora as coisas, seja no plano econômico, ético ou social”. A entrevista também foi ao ar no Repórter Brasil, telejornal da TV Brasil.
Para
isso, ressaltou o presidente da Câmara, Sarney tem que tomar medidas
que visem “à depuração dos costumes” no Senado. Ele deve
resistir, continuar no cargo e, certamente, vai sair dessa crise, completou Temer.
Ele disse também que não tem dúvida do apoio do
PT ao senador nesse momento de crise. Temer lembrou que a coalizão
entre PT e PMDB não é eleitoral, e sim uma união para garantir a
governabilidade. “É uma coalizão governamental”, para ajudar o
presidente Lula a governar.
Leia, a seguir, a
íntegra da entrevista:
Agência Brasil: Presidente Michel, como é que o Congresso
Nacional vai sair dessa crise e correr atrás da credibilidade
perdida? Michel Temer: Votando matérias importantes
para o país. Durante muito tempo, aqui no Congresso nacional tinham
essa ideia de que as medidas provisórias trancavam definitivamente a
pauta e não se podia votar nada. Só no meu período aqui – estou
há cinco meses na presidência da Câmara – se não fosse uma
interpretação que eu dei, destrancando a pauta, estaríamos com a
pauta trancada até hoje, ou seja, não teríamos votado
absolutamente nada.
ABr: Votaram quantos
projetos? Temer: Votamos, no total, entre maio e junho,
que foi o período em que apliquei essa decisão, 93 projetos, e
projetos são propostas de emenda constitucional, leis
complementares. Não é apenas o número, as matérias votadas são
matérias de importância social. Votamos projetos como – vou dar
um exemplo só para ilustrar o que estou dizendo – o que trata da
questão da gestante trabalhadora. Se ela falecer, os direitos
derivados da sua pensão e outros direitos passarão àquele que
detiver a guarda do filho. Estou dando um exemplo para mostrar a
relevância dos projetos.
ABr: Agora, é curioso,
porque a Câmara está votando, mas o que passa para a opinião pública quase
sempre é a crise, são escândalos. Por exemplo, ontem (1º), o
Conselho de Ética não condenou o “deputado do castelo” (Edmar
Moreira, sem partido-MG) ou o das passagens, que também não
foi punido. Como sair dessa agenda negativa de escândalos? Temer:
Nós, aqui na Câmara, saímos, porque um mês depois, mais ou
menos, fizemos uma coisa extremamente útil, que é a transparência
absoluta. Temos a tal verba que hoje está reunificada, a verba para
o exercício da atividade parlamentar, que é uma coisa que existe em
todos os países. Não há país que não tenha essa verba. Nós
'transparecemos' essa verba, ou seja, determinamos que ela vá para a
internet, ou seja, todos terão acesso a essa verba, e é
curioso até que essa ideia de transparecer as contas da Câmara
gerou a aprovação de um projeto que estabeleceu a transparência de
todos os orçamentos públicos: União, estados, municípios e todos
os Poderes, nas várias esferas políticas do país. O Poder
Legislativo é muito sujeito a críticas. Não tenho nenhuma
observação em relação a isso, acho que é um poder aberto da
República, e a crítica é muito saudável, porque significa um
controle popular a essa matéria. Evidentemente, quando há muito
exagero, aqui muitas vezes se separa o joio do trigo. E, ao separar o
joio do trigo, fica-se com o joio. E o trigo é isso que estou
dizendo aqui: é a parte positiva da atuação legislativa.
ABr:
O senhor, como companheiro de partido do presidente José Sarney – parece que a crise aqui é um pêndulo – uma hora está
na Câmara, agora está lá no “tapete azul”. O que o senhor
pensa da pressão para que Sarney se afaste da presidência do Senado,
para estancar a crise do outro lado? Temer:
Pessoalmente, acho que ele não deve desistir. Claro que isso depende
muito da posição pessoal do presidente Sarney: ele foi eleito por
seus pares e ele não é exatamente a crise, ele não é a
significação da crise. É uma crise mais, digamos,
universal. Então, não vejo razão, digo isso porque, de vez em
quando, vejo notícias de que ele pode desistir ou renunciar. Eu, se
pudesse dar um palpite, diria que não deve desistir, que deve
enfrentar isso, apurar os costumes. É claro que, em toda e qualquer
crise, de vez em quando, é preciso dizer o seguinte: não podemos
perder a oportunidade dessa crise. A crise sempre melhora as coisas,
seja no plano econômico, seja no plano social, seja no plano ético.
Não se pode perder a oportunidade da crise. Então, o presidente
Sarney tem que tomar medidas lá [no Senado]. Medidas que
visam à depuração de costumes. No meu modo de ver, ele deve
continuar, deve resistir e certamente vai sair dessa crise, sem
dúvida nenhuma.
ABr: Como peemedebista, o senhor acha
que uma eventual saída do presidente Sarney, por falta de apoio do
PT, abalaria as relações entre PMDB e PT? Temer: Em
primeiro lugar, eu creio que o PT vai dar apoio ao presidente Sarney.
Não tenho dúvida disso. Em segundo lugar, essa questão da relação,
que hoje é uma relação governamental, é uma coalizão
governamental, para ajudar o presidente Lula a governar. Não tem a
ver com o que se chama de coalizão eleitoral, que é uma coisa
diferente, é uma coisa com vistas a 2010. Evidentemente, uma
coalizão eleitoral vai depender da audiência de todos os setores do
PMDB, e é uma coisa que nós vamos fazer no fim do ano, no ano que
vem. Então, eu não gostaria de falar sobre a hipótese de o PT
abandonar o presidente Sarney.
ABr: O senhor está
para votar aqui na Câmara uma nova lei eleitoral, uma lei regulando
o pleito de 2010 antes que a Justiça Eleitoral o regulamente por
conta própria. Existe um sentimento entre os deputados de que o
Judiciário está extrapolando nesse setor, que ele está regulando
coisas que deveriam ser feitas pelo Congresso? Temer:
Acho que o Judiciário vai aplaudir nossas iniciativas. Nós estamos
com uma comissão que vai regulamentar todo o texto constitucional e
entre outras coisas, eu tenho dito aos líderes, os líderes estão
todos de acordo, nós deveremos exercitar a nossa tarefa. A regulação
do processo eleitoral cabe à lei, cabe ao legislador. O TSE, quando
expede resoluções, o faz num vácuo legislativo. Então, quando nós
editamos uma lei – e penso até que na semana que vem nós
conseguiremos votar essa lei do procedimento eleitoral – nós vamos
desonerar o Tribunal Superior Eleitoral. Se você me pergunta: mas
ele vai ficar impedido de expedir as resoluções? Não. É certo que,
seguramente, em um determinado momento, haverá necessidade de
uma resolução, mas não será no vácuo legislativo será por uma
circunstância do momento, daquele instante.
ABr: A nova lei
vai permitir a campanha pela internet, vai regular isso. Então,
liberou geral a internet para os candidatos na campanha? Temer: Não se pode ignorar o avanço tecnológico. A internet é um
avanço tecnológico extraordinário. Então, como é que você não
vai fazer campanha pela internet? Agora, o "liberou geral" não é bem
verdade, porque é claro que haverá cerceamentos, que haverá meios e
modos, que não é muito fácil de conter eventuais abusos que sejam
feitos por meio da internet. O projeto até prevê hipóteses dessa
natureza. Mesmo que se proíba, alguém pode entrar lá e usar
seu nome para fazer. O melhor é disciplinar, mesmo
que minimamente, o uso da internet no pleito eleitoral. Acho
útil para o eleitorado. Hoje, o eleitorado tem acesso, por meio da internet, a todas as informações.
ABr: As leis sobre isso
estão muito atrasadas, não acompanharam o desenvolvimento
tecnológico das comunicações. Não seria melhor regular essa
questão da internet, não só pela eleições, mas o uso, em
geral? Temer: Claro. Há pouco tempo, discutimos isso aqui e
eu ouvi uma afirmação verdadeira, eu não sou muito versado nesse
assunto, mas a pessoa, muitas vezes, contrata o provedor no exterior
e, por meio do provedor no exterior , ele acaba fazendo as maiores
barbaridades. Para você pegar um provedor lá no exterior não é
fácil. Aqui nós temos projetos que tem em vista regulamentar essa
atividade.
ABr: O senhor acha que a troca de comando do
Senado pode levar a uma instabilidade institucional? Temer: Eu
não acho útil. Toda e qualquer troca de comando quando alguém é
eleito não é útil. Às vezes, ela é inevitável, mas, no caso do
Senado, ia gerar um problema desnecessário. Eu volto a dizer: o
Sarney não é a crise, ele está enfrentando uma crise e está
tentando debelá-la.
Edição: Nádia Franco
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