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Paraty (RJ) - O escritor Milton Hatoum vai direto ao ponto ao falar da realidade brasileira. Para ele, não há cidadania
sem livro e política pública tem que ser feita “no miúdo”. A declaração
foi dada em entrevista à Agência Brasil, em que antecipou
algumas das reflexões que devem marcar o debate com Chico Buarque na
mesa literária Sequências Brasileiras, hoje (3), na sétima edição da Festa Literária
Internacional de Paraty (Flip).
Em comum, os dois analisaram a
realidade brasileira em seus mais recentes livros. Em Leite Derramado,
Chico Buarque repassa a história do Brasil a partir das memórias do
narrador, que, próximo de morrer, desfia passagens de apogeu e declínio
de sua família em quatro gerações. Já Hatoum ambienta A Cidade Ilhada em Manaus, palco também de Dois Irmãos, que explora a
presença árabe na Amazônia.
No café ao lado da Tenda dos Autores, que receberá as maiores estrelas da Flip até domingo,
Hatoum cobrou “mudanças estruturais” na política brasileira e o
engajamento das prefeituras nas políticas voltadas à educação.
“Eu,
que ando muito por esse país, observo que os livros do Ministério da
Educação estão chegando às escolas e às bibliotecas. Isso é um alento
para quem escreve, para quem dá tanta importância a leitura”, disse.
“Mas política pública tem que ser feita no miúdo, nos municípios."
Segundo ele, as políticas públicas não devem "obrigar ninguém a ler". "Mas é um absurdo, para não dizer um
crime, você não permitir o acesso à leitura a milhões de crianças
pobres no Brasil. A política do livro deve ser uma prioridade de
qualquer governo. Não há cidadania sem leitura”, disse.
Hatoum
cobrou ainda a valorização dos professores e defendeu a implantação de
uma política de salários para a categoria a partir de 2010. “É uma vergonha que
professores ganhem menos do que um salário mínimo. Qualquer país
desenvolvido, qualquer país civilizado investiu muito na educação, no
livro, na formação dos professores, nos salários dos professores. E
isso eu acho positivo.”
Se a educação evolui no
Brasil, o mesmo não acontece com a política, disse Hatoum. O autor
observa avanços pontuais, sobretudo na educação, que prometem uma
“mudança futura”, mas reclama da demora em mudanças estruturais.
“O
Brasil de hoje ainda é desigual e injusto, mas há avanços pontuais que
prometem uma mudança futura. Eu sinto falta de uma mudança mais
estrutural, ética. Veja o que acontece no Senado”, disse o escritor, em
referência à crise política deflagrada após denúncias de irregularidades
administrativas envolvendo a Casa.
Edição: Enio Vieira
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