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Paraty (RJ) - Na mesa mais concorrida
da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip),
dois escritores contemporâneos esmiuçaram as suas obras
que têm em comum o resgate da história do Brasil a
partir de memórias familiares. Chico Buarque e Milton Hatoum
foram protagonistas de um encontro entre os que traduzem o Brasil por
meio da literatura.
Em Leite Derramado,
Chico Buarque usa a falha memória do narrador, um homem
centenário, para voltar ao Brasil Colônia e caminhar,
por meio das gerações, até o presente. “O
filtro é a memória do velho. E é escrito de
forma desordenada, porque a memória dele é
desordenada”, disse.
Chico Buarque admitiu
que a sua escrita depende da música. No caso de Leite
Derramado, há uma forte influência de Velho
Francisco, canção de sua autoria. “Se uma frase
ou um parágrafo não estiver ‘cantável’ em
algum lugar da minha cabeça, eu recuso. A literatura não
precisa se alimentar só de literatura”, afirmou.
A memória
familiar também é recorrente nas obras de Milton
Hatoum. O amazonense voltou mais uma vez à terra natal para
ambientar Órfãos do Eldorado. Hatoum, aliás,
não rejeitou o rótulo de escritor regionalista. “Sou
o mais regionalista dos escritores. E quanto mais regionalista, maior
a divulgação”, brincou.
Em perfeita sintonia,
os dois autores trocaram impressões bem humoradas sobre os
fantasmas que acompanham a escrita, saciaram as curiosidades sobre a
obra do outro e arrancaram risos da plateia ao revelar detalhes do
processo criativo.
Chico descreveu, por
exemplo, como chegou ao caso do parlamentar que conseguiu a concessão
do Porto de Manaus por ser amigo do então presidente Campos
Salles. Ao interlocutor que lhe relatava o fato, o escritor indagou:
“Isso é mamata, não é?”. E arrematou:
“Acontece até hoje”.
Hatoum, por sua vez,
contou que, atendendo a um pedido seu, uma sobrinha foi aos arquivos
públicos pesquisar duas ou três eventuais “falcatruas”
que poderiam ilustrar a sua obra. “Ela encontrou 26”, disse, às
gargalhadas, Hatoum.
Como não havia
lugar para todos os que queriam ver e ouvir Chico Buarque e Milton
Hatoum, os leitores e fãs aglomeraram-se nas grades que
cercavam a tenda do telão, instalada na Praça da
Matriz, centro histórico de Paraty, para reproduzir
simultaneamente as mesas da tenda dos autores, palco principal da
Flip.
Ao final, uma voz
informou que Chico Buarque autografaria um número limitado de
livros e não tiraria fotos. A última informação,
o escritor prontamente tratou de corrigir. Seria impossível
impedir que o público o fotografasse tão logo
caminhasse pelas ruas de pedras de Paraty.
Edição: Aécio Amado
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