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Brasília - A imparcialidade é
muito mais do que uma virtude no jornalismo. Ela é condição
fundamental para que o leitor acredite ou não em uma informação.
Se aplicada com o devido rigor, ela evita que se cometa enganos
apresentando afirmações que não correspondem à realidade dos
fatos ou, pelo menos, não à totalidade da opinião sobre os fatos.
A parcialidade da
informação inspirou um sentimento de indignação e desconfiança da leitora Maria
Lúcia de Andrade Pinto ao ler a matéria Brasileiros que vivem
em Honduras defendem novas eleições para pôr fim à crise
política, publicada dia 10 de outubro. Ela escreveu: “Acho
absurdo publicar uma matéria na qual se informa que os 350
brasileiros que vivem em Honduras se manifestam a favor de eleições
naquele país. Alguém sabe se existem mesmo 350 brasileiros em
Honduras que assinaram essa declaração? Isso é pura propaganda da
hedionda ditadura que domina Honduras nesse momento”.
A matéria
aparentemente generaliza uma informação a partir da opinião de
uma única fonte ouvida pela reportagem atribuindo-a a todos os
brasileiros residentes naquele país como se eles tivessem realmente
sido ouvidos. Para afirmar que “a expectativa de todos” é essa
ou aquela, todos precisariam ter a oportunidade de manifestar sua
expectativa em relação à crise politica e o feito de maneira unívoca, no
entanto, apenas uma brasileira, presidente de uma “associação
organizada [sic]” falou por eles, sem constar que os tenha ouvido
em qualquer pesquisa ou enquete em que pelo menos uma maioria se
manifestasse dessa ou daquela forma. Mesmo assim, se a suposta
pesquisa existisse, no máximo a ABr poderia informar que a
maioria dos brasileiros defendem determinada saída para a crise política e não sua totalidade, por uma
questão de precisão – outra virtude do jornalismo.
Se a Agência Brasil
tivesse feito a devida apuração provavelmente disponibilizaria os resultados da pesquisa para a leitora em sua resposta,
justificando o que afirmou na matéria. A resposta foi apenas:
“Agradecemos a leitora pelo comentário”. De onde veio a
informação de que 350 brasileiros que vivem em Honduras declararam
sua opinião? Esta é a pergunta da leitora para a qual a ABr não
apresentou a origem da informação.
Continuando, a notícia traz outras constatações e inferências que carecem de embasamento
para que possam se sustentar. Para dizer que a comunidade de
brasileiros “virou alvo das atenções” seria necessário que a
maioria do povo hondurenho fosse ouvida e declarasse que tinha
voltado suas atenções para tal comunidade - o que sabemos que
tampouco aconteceu.
Ao tentar qualificar
sua fonte, a ABr fornece informações discriminatórias que
só têm relevância pelo conteúdo preconceituoso que carregam.
Dizer que ela é uma veterinária casada a qualifica de alguma
maneira para emitir opinião sobre a situação politica do país que
a acolheu? Ou dizer que ela trabalha, pertence à classe média alta
e que é “culta”? Qual é o indicador de cultura para se medir
esse tipo de atributo? Tampouco o fato dela ter participado de
reuniões promovidas pela comitiva parlamentar que visitou
Tegucigualpa ou manter contato com diplomatas pode ser uma credencial
se essas informações não forem devidamente qualificadas.
Participou como? Oficialmente? Na qualidade de que? Que tipo de relações ela
matem com diplomatas? Profissionais? Amadoras? De parentesco ou
amizade?
A mesma fonte é
utilizada pela Agência Brasil para emitir opinião sobre a
confiabilidade do Tribunal Eleitoral de Honduras e a origem de seus
magistrados, como se eles precisassem desse tipo de aval. No campo da
geopolitica internacional há normas, hierarquia e protocolos que
precisam ser respeitados pela imprensa de um país em relação a
outro. Se a ABr queria informar aos leitores sobre as
atividades e a confiabilidade da Suprema Corte eleitoral daquele país
por que não solicitou uma entrevista diretamente a seus integrantes?
Concluindo, a referida
fonte faz menção ainda à “interferência” de nosso governo
naquele país e a suposta perseguição a cidadãos brasileiros
hostilizados por “algumas pessoas estressadas com toda essa crise”.
Será que o simples fato de “acompanhar o processo politico no país
onde vive” a qualifica para emitir opinião sobre nossa política
externa e a Agência Brasil a publicá-las? Será que o
simples fato de “acompanhar o processo politico no país onde vive”
a autoriza a comentar publicamente a politica interna daquele país
e a Agência Brasil a publicar seus comentários? Sequer
embaixadores fazem isso quando não estão devidamente autorizados
pelo Itamaraty por uma questão de respeito à soberania das nações.
Somando as imprecisões
cometidas na matéria há que se perguntar a quem serviram tais
informações? No jornalismo, quando se encadeia uma sucessão de
argumentos e de opiniões de uma única fonte sobre um assunto corre-se o risco da parcialidade- uma tentativa de induzir o leitor a uma determinada
conclusão. O maior ou menor sucesso dessa deplorável atitude
dependerá justamente da legitimidade da fonte para falar sobre o
assunto. No caso, para a leitora, parece que ficou evidente que
“isso é pura propaganda da hedionda ditadura que domina
Honduras nesse momento”.
Para não ter suas
notícias interpretadas dessa forma, a Agência Brasil precisa
de rigorosa apuração dos fatos e de critérios para selecionar
suas fontes. A maneira de abordar certos assuntos regidos por regras
estabelecidas em tratados internacionais devem respeitar preceitos
éticos e diplomáticos. Se as eleições são ou não a saída para
a crise politica isso poderia ser discutido à luz do contexto em que
se deu o golpe de estado e de suas causas internas e externas,
conforme analisamos em nossa coluna Honduras:
o contexto do golpe , publicada dia 7 de agosto. Fora do contexto
a informação pode ser considerada proselitismo e, portanto,
incompatível com os objetivos e princípios do jornalismo que a
agência pública tem a missão de praticar.
Até a próxima semana.
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