|
Brasília - Ao completar 20 anos do
retorno do país ao processo de eleições diretas,
o Brasil ainda enfrenta resistência à democracia, na
opinião do constitucionalista Dalmo Dallari. Essa resistência
parte, de acordo com o jurista, de grupos tradicionais que ainda
insistem na manutenção do trabalho
escravo e de um processo de criminalização de
movimentos sociais e de comunidades pobres.
“É falta de
democracia a alta incidência de trabalho escravo especialmente
em certos tipos de exploração econômica. Temos um
grupo organizado do agronegócio que age ostensivamente dentro
do Congresso Nacional, que se coloca acima da Constituição.
O primeiro objetivo é ganhar dinheiro. Com isso, permanece
essa vergonha que é o uso do
trabalho escravo.”
A tentativa de
criminalizar movimentos sociais, segundo ele, e a criminalização da própria pobreza
são manifestações ainda remanescente de um
sistema autoritário, discriminatório que se afirmou no
Brasil durante a história. "Ainda é uma herança
do sistema colonial. Houve a formação de uma elite
econômica absolutamente egoísta que não reconhece
o valor humano dos pobres, dos trabalhadores. Isso infelizmente ainda
existe no Brasil e provoca o problema da criminalização.”
Dallari apontou a
Constituição Federal de 1988 como o mais importante
marco da volta do país ao processo democrático. “Pela primeira vez tivemos no
Brasil uma Constituição que começa afirmando
princípios que são obrigações mínimas.
É importante ressaltar que logo no início a
Constituição afirma como princípio a dignidade
humana Esse princípio foi que abriu caminho para as reivindicação
de direitos",
destacou.
Outro ponto destacado
por Dallari como sinônimo de atraso do processo democrático
são os crimes de pistolagem, com fundo político, que
ainda ocorrem em alguns estados brasileiros. Ele chegou a citar os
assassinatos cometidos por grupos de extermínio na Paraíba
e em Pernambuco que atualmente mantêm como ameaçados os
deputados federais Luiz Couto (PT-PB) e Fernando Ferro (PT-PE). “
Nós temos plena violência contra a pessoa humana no
estado da Paraíba e em Pernambuco. Ainda se praticam o crime
da pistolagem, com assassinato de juízes e de deputados”,
destacou.
Na avaliação
de Dallari as consequências positivas do retorno do Brasil
ao processo democrático está na maior
distribuição de renda que se verificou nos últimos
anos e nas políticas públicas implantadas desde então.
“Há ainda um caminho grande a ser percorrido, mas comparando
com o que existia antes de 1988, o saldo é positivo. Estamos
avançando. Podemos dizer que o Brasil vem se democratizando, e
a Constituição tem dado uma contribuição
fundamental para isso.”
Edição: Talita Cavalcante
|