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Brasília - A cobertura dos assuntos de interesse da população negra no Brasil
pelos grandes jornais e revistas reproduz posições contrárias a ações
afirmativas, como cotas em universidades e o reconhecimento de terras
remanescentes de quilombos. O diagnóstico é do Observatório Brasileiro
de Mídia, que analisou 1.093 reportagens, veiculadas
nos principais jornais e revistas de circulação semanal do país, entre 2001 e 2008.
A
pesquisa avaliou a cobertura de pontos considerados de interesse da
população negra: cotas nas universidades, reconhecimento de direitos
quilombolas, ações afirmativas, Estatuto da Igualdade Racial,
diversidade racial e religiões de matriz africana.
Nos jornais,
22,2% dos textos tinham conteúdo contrário às políticas de reparação
de desigualdades, com posicionamento desfavoráveis a cotas raciais no
ensino superior, ao Estatuto da Igualdade Racial e à demarcação de
territórios quilombolas. Em 15% dos casos, as matérias tinham conteúdo favorável a esses temas. Cerca de 1,5% dos textos tratavam da
necessidade de mais debate sobre ações afirmativas.
De acordo
com o pesquisador do Núcleo de Estudos sobe Mídia e Política da
Universidade de Brasília, Venício Lima, o posicionamento contrário a
ações afirmativas é justificado em editoriais com o argumento de que
essas medidas promovem o racismo. Já em relação ao reconhecimento de
terras quilombolas, os editorialistas consideram “que o critério da
autodeclaração é falho e traz insegurança à propriedade privada”, cita
o pesquisador em artigo.
Segundo Lima, durante o período
analisado, diversos estudos confirmaram “o acerto das políticas
afirmativas”, mas somente 5,8% dos textos publicados pelos jornais
noticiaram ou repercutiram esse tipo de estatística. Quando apareceu
nos jornais, a divulgação de pesquisas e estudos sobre temáticas da
população negra mostrou principalmente dados sobre diferenças entre
negros e brancos no mercado de trabalho, a baixa escolaridade da
população negra, o racismo e os percentuais elevados de vítimas de
violência e mortalidade entre os pretos e pardos na comparação com os
brancos.
A análise da cobertura das revistas teve resultados
semelhantes aos dos jornais, de acordo com o estudo. Os textos com
posicionamento contrário às ações afirmativas também apareceram em maior proporção que as matérias com conotação favorável, 26,4% e 13,2%,
respectivamente. Assim como nos jornais, a cobertura dos programas de
cotas raciais nas universidades foi o que mais apareceu no noticiário
entre os assuntos de interesse listados.
Na avaliação do
pesquisador, os resultados revelam um paradoxo ao mostrar que os
grandes jornais e revistas têm se preocupado cada vez mais com a
liberdade de expressão, mas, ao mesmo tempo, não têm o mesmo cuidado com
a “reparação da desigualdade e da injustiça” sofridas pela população
negra do país.
Edição: João Carlos Rodrigues
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